Revista “Banas Qualidade” de outubro de 2002 página de 32 a 34
Trechos Importantes da Entrevista : “ E vem chegando a Primavera...” – Temas de Responsabilidade Social e Ética nas Empresas
"Sou funcionária de uma universidade pública, na qual o quadro de colaboradores é composto por cargos que vão de professores doutores a auxiliares campais (esses em maior número). O fato que presenciei me deixou indignada: um professor doutor, não sei por que razão, humilhou de forma inacreditável duas funcionárias do prédio em que trabalho, chegando ao ponto de atirar-lhes uma banana (fruta). Tudo isso levado por seu posto hierárquico, ou seja, o famoso pensamento comigo ninguém pode. Elas foram obrigadas a retirar a queixa feita na delegacia da mulher, para que o caso não complicasse, ainda mais, para o lado delas. Como um funcionário pode ter motivação para trabalhar se encontra em um ambiente educacional universitário, pessoas que ignoram totalmente o respeito pelo próximo? Não adiantam normas para se fazer cumprir a ética se os profissionais não sabem o que elas significam. Não adiantam normas para se fazer cumprir a responsabilidade social se os maiores não se interessam." (R.P.R., 45, assistente social).
Responsabilidade social e ética. O psicólogo Salomão Rabinovich alerta sobre a confusão que gira em torno desses assuntos. É comum algumas empresas destinarem uma parte de seu lucro para uma Organização Não-Governamental (ONG), por exemplo, a fim de comprovarem sua preocupação com o social. Para o psicólogo esse tema está num patamar superior, ou seja, no comportamento da companhia em relação a seus colaboradores, fornecedores e consumidores. A incongruência apresentada nessa área estaria ligada à hipocrisia social, na qual empresas tentam mostrar algo que na realidade não possuem. "Vivemos um estado de perplexidade muito grande, acarretado por um processo de deterioração moral e de valores." Como mudar esse quadro? Entre as soluções, a proposta de uma revolução cultural para "recomeçar", ou melhor, reconstruir o Brasil. "Caso contrário, as outras saídas podem ser o aeroporto de Cumbica e o fechamento de empresas, o que é lamentável."
Para essa revolução cultural, apregoada por Rabinovich, o homem vai depender de duas ferramentas extremamente democráticas: o exercício pleno da cidadania e o voto consciente. "Apesar de serem palavras bastante pronunciadas, ultimamente, existe muita dificuldade em se executar ou se exercer a democracia, a cidadania e a ética." Empresas tentam passar uma imagem de ética e de respeito e fazem exatamente o inverso com os seus consumidores. E se praticam o oposto do que pregam com seus clientes, com seus fornecedores, o que não estará reservado à sua equipe? O pior disso tudo é que a deterioração de valores está levando a uma outra situação dramática, que poderá alterar o quadro institucional brasileiro com a maior crise de credibilidade já vista em solo verde-amarelo. "A credibilidade nas pessoas e nas instituições está muito próxima de zero. Precisamos reverter esse quadro com ações efetivas e verdadeiras."
Algumas empresas querem mostrar qualidade para o seu público-alvo, mas cometem erros éticos de toda a sorte. Nesse caso cabe o dito popular: "de boas intenções, o inferno está cheio". Ultimamente, exportando. Em seu consultório, Rabinovich, tem a comprovação de que muitas companhias ainda pressionam os seus funcionários. "Atendo pessoas de cargos hierárquicos diferenciados e percebo a pressão que estão sofrendo exatamente pelo temor do desemprego." Rabinovich revela que muitas organizações fazem assédio moral de forma acintosa: "Se você não fizer esse serviço, temos 30 currículos à disposição". Entretanto, há um outro lado que não pode passar despercebido: pessoas que não querem se envolver com a empresa, que não querem "vestir a camisa".
Nenhuma companhia pode desenvolver projetos positivos e satisfatórios se não tiver uma equipe motivada. "Por mais bem-intencionada e por mais recursos que tenha."
Vamos celebrar nossa justiça / A ganância e a difamação / Vamos celebrar os preconceitos / E o voto dos analfabetos
"Trabalhei dez anos numa empresa na área de controle de qualidade e estava sendo preparada pelo diretor-industrial para ser promovida a gerente industrial. Infelizmente, esse diretor faleceu e a minha promoção não aconteceu, porque quem assumiu o lugar dele promoveu um rapaz, alegando que ele nunca daria um cargo como esse para uma mulher, pois lugar de mulher tem de ser dentro de casa cuidando dos filhos e do marido. Pouco tempo depois fui demitida da empresa, porque me neguei a treinar o rapaz, que havia sido promovido para o cargo de gerente industrial." (M.T.B.S., 46, química industrial). Na trilha do preconceito, outro depoimento enviado na pesquisa realizada pela Revista BANAS QUALIDADE: "Certa vez, estava no refeitório da empresa em que trabalhava com um outro gerente, quando o diretor chegou e viu dois novos funcionários almoçando - um negro e um branco. Irritado, questionou-nos sobre o que fazia aquele negro naquela mesa. 'Quem o admitiu? Não era para ele estar aqui dentro, pois não deve ter nenhum curso técnico e nem colegial. Aquele branquinho, sim, tem conhecimento e formação. Manda o neguinho embora!' O meu companheiro disse para o diretor que ele estava enganado, pois o negro tinha colegial e curso técnico igual ao outro. E o diretor continuou a dar ordens absurdas. O meu companheiro foi ao departamento de recursos humanos buscar as duas pastas de documentos para comprovar o que estava falando.
Desapontado, o diretor se deixou convencer, mas o negro não conseguiu ficar muito tempo na empresa, porque o diretor, em questão, é racista, estúpido e ignorante." (D.C.A., 46, metalúrgico).
Preconceito quanto ao sexo, a raça, idade etc. Como mudar a fotografia social do Brasil? Quanto tempo levaria essa revolução cultural apontada por Rabinovich? "Uma revolução armada, poderia durar cerca de 30 anos. Mas uma revolução cultural, vai se estender, com certeza, por gerações." E o que seria essa revolução cultural? "O apoio à educação e à cultura, o exercício da cidadania, o fim da impunidade e das iniqüidades, a busca de uma justiça ágil e rápida, a moralidade pública." E de que forma as empresas podem administrar essa luta?
Começando pela qualidade de vida que oferece a seus funcionários. Sem implantações de sistemas demagógicos, "para inglês ver", porque nem a Inglaterra ou qualquer outro país quer receber imagens negativas de violência e pobreza, como as que já foram exportadas pela nação brasileira.
Rabinovich é enfático em dizer que pouquíssimas empresas estão realmente preocupadas com o bem-estar dos seus funcionários. "Acho que a malandragem maior é o empresário querer que os colaboradores estejam muito bem física e emocionalmente, porque, dessa forma, vão render muito mais." Ninguém vai lucrar com esse tipo de atitude. A relação humana é difícil, seja ela entre pai e filho, mãe e filho, empregador e empregado, homem e mulher (ou vice-versa).
Se não houver transparência, confiança recíproca de lealdade, não há relação. "E isso é difícil de se conseguir, porque as pessoas não são homogêneas, algumas trazem conteúdos sociais já estigmatizados." Para o psicólogo, o que ocorre no Brasil é fruto de uma cultura social distorcida, em que os valores do ter são muito maiores e mais importantes do que os do ser. "Cria-se, dessa maneira, uma sociedade falsa." Entretanto, uma parte dela já se prepara para o levante. Principalmente, as classes média e média-alta, que sempre tiveram acesso ao consumo, a uma vida próspera e, hoje, estão sentindo o resultado da omissão social.
Em seu artigo Responsabilidade Social Corporativa e Sustentabilidade: Longevidade à Empresa Cidadã, o diretor-geral do Grupo Bureau Veritas para o Brasil, Sergio de Albuquerque e Mello, que atua na área de gestão ambiental e responsabilidade social, avalia que a sociedade global acena com uma exigência inadiável, comportando-se como uma adolescente diante das responsabilidades da vida adulta. "Cobra das empresas uma atitude correspondente ao conceito da 'Cidadania Corporativa Global', que envolve ao mesmo tempo a sustentabilidade e a responsabilidade social, de fato totalmente indissociáveis." Ele reforça que não se deve pensar em sustentabilidade como algo restrito ao meio ambiente, assim como responsabilidade social não se limita a ações ou investimentos em projetos sociais. "Os dois conceitos estão intrinsecamente ligados. Uma empresa, que pretenda perenizar seu negócio, deverá adotar uma estratégia que contemple o que os ingleses chamam de triple bottom line, ou seja, gerar valor nas dimensões econômica, ambiental e social."
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